Dines: “Estamos criando midiotas”
By João Marcos Rainho On 29 Jun, 2016 At 12:15 PM | Categorized As Jornalismo Freelance | With 0 Comments

jonalismo investigativo

O congresso anual da associação que reúne os jornalistas investigativos do país, a Abraji, homenageou este ano Alberto Dines, o decano do jornalismo brasileiro. A Abraji fez questão de frisar que o prêmio de Contribuição ao Jornalismo veio pelos 20 anos do trabalho de Dines à frente do Observatório da Imprensa, além dos seus 60 anos de carreira.

Na placa que distingue a homenagem, o pessoal da Abraji escreveu: “Quando o jornalismo se encanta em ser estilingue, o Observatório da Imprensa nos recorda que ele é – e sempre deve ser – também vidraça.”

Dines não pôde ir receber a homenagem, recupera-se de um problema de saúde em sua casa. Mas não deixou de enviar uma mensagem tecida com sua característica acidez e assertividade e que foi lida por Norma Couri, companheira de ofício e esposa.

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“Todo Jornalismo é investigativo, ou não é Jornalismo. Donde se conclui que o que lemos, ouvimos e vemos todos os dias na imprensa não é Jornalismo”, definiu Dines.

Esclareceu também que o que sobra da mídia diária “é o que o olho do público vai buscar nas entrelinhas”, ao mesmo tempo em que se cria um “público dispersivo, apático, incapaz de reagir ou questionar”. Em decorrência produz-se “midiotas, negligentes e distraídos”.

No entanto, esta seria uma falsa questão que se corrige no dia a dia com inciativas como as propostas pela Abraji, e por aqueles “que escapam do engodo e sobrevivem às armadilhas das teorizações apressadas – os que permanecem lúcidos”.

Na sua peça oratória, assim como na vida, Dines se preocupa seriamente com o conteúdo do jornalismo e não deixou pedra sobre pedra. Como não deixou nenhuma pedra sobre pedra desde que lançou o Jornal dos Jornais, em 1975, o Jornal da Cesta, em 1977, e o próprio Observatório, em 1996 – agora carinhosamente reconhecido pelos seus pares.

Num texto breve, mas irrepreensível, Dines se desvela em sua grandeza crítica, em sua marca registrada que vem iluminando leitores no olhar sobre nossa mídia repleta de paradoxos e agora devastada por uma crise sistêmica que pode levar ao fim o jornalismo como o conhecemos – inclusive o investigativo. Perdão, porque para Dines, jornalismo investigativo é uma tautologia.

Mas, como prova disso, como atestado de que há uma luz no fim do túnel, o mesmo congresso homenageou também uma jornalista de enorme fôlego investigativo, Elvira Lobato, pelo conjunto de sua obra.

Ou seja, enquanto existirem jornalistas há esperança. E um destes exemplos é repórter Elvira Lobato, conhecida pelos 27 anos de trabalho persistente na Folha onde foi autora, entre inúmeras revelações duramente investigadas, da reportagem que ganhou o Prêmio Esso de 2007, “Universal chega aos 30 anos com império empresarial”, e que lhe rendeu mais de 100 processos da Igreja Universal do Reino de Deus. Não adiantou. Elvira ganhou todos os processos. E, assim como Dines, ganhou também o reconhecimento dos seus pares – “o melhor prêmio que alguém pode ter”, disse ela.

 

Observatório da Imprensa

Sobre

João Marcos Rainho, jornalista, 25 anos de experiência,especialista em comunicação pública tendo atuado em consultorias da FGV e Instituto Florestan Fernandes.

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