O Invasor americano
By João Marcos Rainho On 28 Feb, 2017 At 08:02 PM | Categorized As Filmes | With 0 Comments

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A verdade liberta. Documentários são formas rápidas e precisas de entendimento de fatos atuais, principalmente quando o tema tem o engajamento da visão crítica e busca da justiça social. Se as escolas exibissem filmes como “O Invasor Americano” (2016), de Michel Moore, muitos conceitos falsos de governos e seus puxa-sacos na imprensa seriam facilmente detectáveis e neutralizados pela população.  Viajando pelo mundo, Michel pinçou experiências de políticas públicas bem-sucedidas que provam que a utopia existe sim. E diversos países aplicam a sociedade do bem-estar social, ao contrário do que pregam os apóstolos da desregulamentação dos direitos sociais. O título é uma paródia bem ao estilo de Moore, que brinca com uma pretensa missão sua dada pelos militares americanos de invadir países para roubar boas práticas.

A saga começa na Itália, onde existem férias de 30 a 40 dias, 13 salário e licença maternidade de seis meses. Só dois países no mundo não pagam licença maternidade: Nova Guiné, e os EUA. Na empresa de roupas Lardidi Company, das marcas Dolce & Gabanna, os donos acham justo esses pagamentos; direitos dos trabalhadores é um prazer, dizem, ou seja, um prazer proporcionar isso. “Se nós tiramos férias, eles merecem também”.  A expectativa de vida dos italianos é uma das mais altas do mundo e vivem quatro anos a mais em média que os americanos e a produtividade na Itália é uma das mais altas do planeta.  Na Ducati, fábrica de motores, o CEO, diz não existir nenhum conflito entre o lucro das empresas e o bem-estar dos trabalhadores. Entretanto é bom lembrar, nada foi dado, foi fruto de árduas lutas sindicais.

Na França, escola públicas são servidas como restaurantes finos na cantina. O cardápio é discutido com o chef da escola, nutricionistas e representantes da comunidade (escalope ao molho de curry feito com creme fresco, por exemplo – de entrada, e espeto de cordeiro com cuscuz, mais um prato de queijo e a sobremesa – exemplos de um dia). A comida saudável faz parte de uma estratégia das escolas para as crianças aprenderem a ter uma alimentação equilibrada, segundo explicam para Moore. O almoço é uma aula onde se aprende a comer de forma civilizada, apreciar comida saudável e servir uns aos outros. E beber água.

Na Finlândia as crianças têm 20 h semanais na escola, incluindo o tempo para refeições. “O objetivo da escola é aprender o que te deixa feliz”, diz um especialista local. O jovem estudam poesia, tema que foi retirado da grade norte-americana. Os educadores finlandeses acham essa decisão negativamente “incrível”. Lá não tem escola pública melhor que outra, seja no centro ou na periferia. São todas iguais e ótimas.

E quanto a Eslovênia, país do leste europeu? As faculdades públicas são gratuitas, de excelente nível e atraem estudantes estrangeiros – que também não pagam – incluindo americanos. Há alguns anos um grupo e 40 pessoas lideraram um grande protesto que obrigou o governo a renunciar e marcar novas eleições por causa de uma proposta de cobrar mensalidade das universidades para estrangeiros. A população achou um precedente perigoso essa tentativa de “pedalada” nos direitos consolidados.

Outra fábrica, a Fáber Castell, na Alemanha, mostrado por Moore, trabalhadores ficam apenas meio período e o restante do tempo vão curtir a vida. Ninguém precisa de um segundo ou terceiro emprego, porque ganham o suficiente para viver.

Portugal não prende ninguém por uso ou porte de drogas. E por isso o consumo de drogas baixou. Para os policiais, a dignidade humana é a coluna vertebral da sociedade e por isso está acima até da pena de morte. Outro case mostrado pelo documentário.

E na Noruega o sistema prisional é baseado nos princípios da reabilitação, não da vingança. Tirar a liberdade dos presos e a principal punição, dizem os noruegueses. O índice de reincidência dos presos é de 20%, enquanto nos EUA é de 80%.

Na Tunísia, uma revolução social começou e derrubou o governo de um ditador após fiscais corrutos tentarem extorquir um desempregado, que vendia frutas numa praça e que se suicidou ateando fogo no corpo, como protesto.

O documentário finaliza lembrando a greve das mulheres islandesas, em 1975, lutando por igualdade de direitos, que elegeu a primeira mulher presidente do mundo. As mulheres hoje, na Finlândia, ocupam a metade dos postos de comando nas empresas e metade no parlamento.

Michael Moore, fundou aos 22 anos o diário alternativo The Flint Voice, um dos mais respeitados do país, e que durou 10 anos. Entre os seus filmes mais famosos estão Fahrenheit 9/11, de 2004, no qual critica George Bush; Bowling for Columbine (br: Tiros em Columbine) (2002) onde aborda a obsessão por armas nos Estados Unidos, relacionando-a com o Massacre de Columbine, ocorrido numa escola.

O Invasor Americano pode ser visto no Netflix, no youtube e em diversos outros canais.

 

Sobre

João Marcos Rainho, jornalista, 25 anos de experiência,especialista em comunicação pública tendo atuado em consultorias da FGV e Instituto Florestan Fernandes.

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