Ser Jornalista Freelancer em Portugal

O jornalista freelancer não segue linhas editoriais nem sofre a pressão da redacção. Em troca da liberdade, paga o preço da solidão e da precaridade de trabalho.

Texto de Joana Marques e Nelson Furtado (Portugal)

 

“O futuro do jornalismo é o freelancer”, é o mais recente slogan da Federação Internacional de Jornalistas. Em Portugal, a maioria dos freelancers debate-se com dificuldades altamente desmotivadoras: financia as peças por sua conta e risco, sem garantia alguma de que sejam compradas e, mesmo quando são, as empresas pagam quantias irrisórias e com prazos que podem levar até um ano de espera.

Para Cármen Inácio, ser freelancer é “estar na corda bamba: tens trabalho comes, não tens ninguém que te contrate, não comes!”, afirma com alguma revolta.

 

Cláudia Aranda, que fotografa e escreve as suas reportagens de viagem, confessa que já chegou ao ponto de não ter dinheiro para beber um café.

É um mundo “de altos e baixos”, garante Cláudia. Tanto se vende num mês dois ou três trabalhos, como no mês seguinte não se vende nada. Com uma peça a valer, em média, 250€, que tanto podem ser pagos hoje como daqui a um ano, a insegurança é uma constante.

Ana Pedro considera que “a remuneração do trabalho não justifica o risco. É aliciante, mas não justifica”. Para colmatar esse risco, a grande maioria dos freelancers desenvolve actividades em paralelo, como o ensino. “Só um freelancer, com 2 ou 3 avenças é que consegue subsistir como freelancer”, afirma Ana Pedro.

É o caso de José Frade, que conseguiu 2 avenças, uma com o INATEL, para a revista TEMPO LIVRE, e outra com a EGEAG, da qual faz parte o Teatro São Luís, o Maria Matos e o Cinema São Jorge. “Estas 2 avenças permitem-me viver descansado em termos financeiros”.

Desencantado com a classe política, que era obrigado a fotografar nos tempos de redacção, José Frade enveredou pela carreira de freelancer por prazer e hoje é dos poucos que tem tempo para a profissão e para fazer tudo o mais que gosta, como fotojornalismo de viagem.

Alguns colegas de profissão “têm de fazer oito e nove trabalhos por dia. Fazem tudo a correr. Eu tenho tempo para fotografar com calma o meu trabalho e as viagens que costumo fazer” comenta José Frade.

Já fotografou em Cuba, Chile e Deserto do Saara. Confessa que é difícil vender trabalhos quando não se é amigo do chefe de redacção: “Já me aconteceu ver um trabalho recusado e depois aceite, consoante o chefe de redacção que esteja lá no momento”. É um meio “cheio de preconceitos”, desabafa José Frade.

Um bom exemplo de uma certa arbitrariedade na escolha dos trabalhos dos freelancers é a história de José Manuel Bacelar. Em 2003, viu o seu trabalho sobre os incêndios do Verão passado ser recusado por todos os órgãos de comunicação social. O único jornal que lhe comprou as fotografias foi o Le Monde e acabou por ser galardoado com o IV Prémio Visão de Fotojornalismo 2004 (para ver trabalhos de Bacelar: www.fotopt.net).

Cláudia Aranda trabalha por iniciativa própria, decide o ângulo de abordagem das suas reportagens, apresentando-as depois aos órgãos de comunicação. Mas há outro modo de trabalho dos freelancers: por encomenda.

A encomenda “surge quando o órgão de comunicação social sabe que o jornalista é especialista em determinada matéria ou exerce a actividade de investigação”, explica Ana Pedro.

Na maioria das vezes estabelece-se um sistema de encomendas regulares, caso o freelancer se entenda com o editor, porque “o jornalista freelancer não se deixa orientar”, frisa Ana Pedro.

Uma das maiores dificuldades dos freelancers é o acesso às fontes. O jornalista freelancer é descriminado por não estar ligado a nenhum órgão de comunicação social, sobretudo em eventos de grande visibilidade. Na altura da EXPO 98, o Sindicato dos Jornalistas foi chamado a intervir para solucionar a restrição feita à entrada dos jornalistas freelancer no recinto.

Com tantas dificuldades na profissão, por que é que se escolhe ser freelancer? Na maior parte dos casos, em Portugal, não se trata de uma escolha, mas de uma imposição do sistema. Muitos dos jornalistas vêem-se forçados a ser freelancer, simplesmente porque não têm onde trabalhar. Cármen Inácio tornou-se freelancer quando a Rádio Renascença a dispensou após 4 anos de serviço.

José Domingues, representante dos repórteres fotográficos no Sindicato dos Jornalistas e fotojornalista do Jornal de Notícias há 17 anos, assegura que “a situação de desemprego dos jornalistas freelancers tem vindo a agravar-se.

Pessoas com 50 anos “estão a ser consideradas velhas na classe. Um jornalista é jornalista toda a vida, recusa-se a aceitar o carimbo de reformado na carteira. Mesmo que não ganhem nada, muitos preferem continuar a exercer a profissão com o estatuto de freelancer”, afirma José Domingues.

Há jornalistas a trabalharem há mais de 10 anos a recibos verdes. O recibo verde significa estar a trabalhar temporariamente para um órgão de comunicação, o que equivale a estar num limbo: não se integra o quadro nem se é freelancer, porque não se deixa de estar preso a vínculo laboral ainda que tão precário.

Talvez por isso Ângelo Lucas, fotojornalista freelancer, tenha apelidado este fenómeno de “falsos-freelancers”.

A condição de “falso-freelancer” é, em parte, devida ao “medo de denunciar a situação ilegal e de que o outro tome o meu lugar, uma vez que para eu poder denunciar tenho de sair da redacção e ceder o meu lugar a outro e esperar 2 anos uma decisão do tribunal”, queixa-se José Domingues.

Aquele fotógrafo conta que, muitas vezes aqueles que denunciam são os mesmos que se calam com medo de retaliações: quando o Sindicato recebe uma denuncia e decide actuar, deslocando-se ao órgão em questão, os denunciadores arrependem-se sempre e as inspecções são quase sempre em vão.

O ambiente da redacção é algo muito querido pelos jornalistas. José Frade, Cláudia Aranda e Cármen Inácio sentem a falta desse “bichinho” frenético que é a redacção de uma rádio ou de um jornal.

Tenho “saudades do ti-nó-ni, desse frenesim todo de pôr a informação no ar, de informar sobre aquilo que está a acontecer”, diz Cármen Inácio, recordando os tempos da rádio.

José Frade afirma: “Todas as noites adormecia a pensar para onde é que ia no dia seguinte, o que é que ia fazer. Isso deixa saudades”.

As saudades também atingem Claúdia Aranda: “Gostava de voltar a fazer parte de uma redacção. Gosto da troca de ideias entre os colegas. A vida do freelancer é feita solitariamente, não há contacto com o meio”.

Já Cármen Inácio guarda más recordações do tempo da redacção: “sentia que era uma pessoa que ia ouvir uma informação que foi vomitada e que eu tinha que a por enfeitada num prato para que todos a comessem”.

Cármen acrescenta com rebeldia: “estou a fugir das redacções como o diabo da cruz! Numa redacção tu não passas de um dedo que tecla, porque não há isenção. O jornalismo já se vendeu há muito!”.

 

http://www.fcsh.unl.pt/cadeiras/plataforma/foralinha/atelier/a/www/view.asp?edicao=02&artigo=187

 

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