Mestrado em Jornalismo Empreendedor terá versão online

O coordenador do mestrado em Jornalismo Empreendedor da Universidade de Nova York, Jeff Jarvis, confirmou para a  Agência Publisher de Notícias que pretende criar uma versão online do curso. “Nós recebemos  uma surpreendente demanda de alunos no exterior” disse Jarvis, planejando uma carga horária que atende dois meses de aulas. O mestrado foi iniciado no final do ano passado com o objetivo de despertar a vocação empreendedora na área de jornalismo. “Um dos pontos destacados no curso é planejar o salto da idéia para a formatação do produto”, destaca o professor.

O ensino do empreendedorismo está crescendo no Brasil. Diversos cursos de pós graduação já existem em várias universidades. A disciplina empreendedorismo começou nos cursos de Administração e já está se expandindo para outras áreas, como Jornalismo.Poucas faculdades disponibilizam a disciplina, mas a tendência é de crescimento.

Para retornarmos no tempo, republicamos abaixo um trecho de matéria “Novos Rumos do Jornalismo”, do Blog Escrevinhamentos (julho de 2009). Naquela época se discutia no MEC a revisão das Diretrizes Curriculares dos cursos de Jornalismo. Destaco o trecho envolvendo empreendedorismo:

 

Empreendedorismo

Diferentemente de Joseph Pulitzer [idealizador da primeira graduação em Jornalismo no mund, na Universidade de Columbia], que era contrário à idéia de que os estudantes de Jornalismo fossem submetidos a ensinamentos relacionados à administração e gestão de negócios, há quem aponte estes conhecimentos como vitais para a construção de um curso de Jornalismo que adeque o profissional ao que o mercado lhe apresenta. Este mercado, alimentado pela revolução tecnológica propiciada pela internet, oferece um sem número de oportunidades para os jornalistas que dominam as suas ferramentas e tenham, também, noções de empreendedorismo.

Eugênio Bucci não esqueceu este viés em suas sugestões à comissão do MEC. O sétimo eixo de sua proposta de conteúdo chama-se “Gestão e Negócio”. “Por fim, e aqui contrariando Pulitzer, penso que o jornalista precisa ter noções sobre governança, planejamento e liderança de equipe logo em sua primeira formação. Isso o ajudará, mais tarde, a empreender novas idéias.”.

No artigo “In Digital Age, Journalism Students Need Business, Entrepreneurial Skills”, Mark Glaser mostra que esta é uma preocupação que permeia as escolas de Jornalismo estadunidenses.

O caminho tradicional do Jornalismo está mudando. No passado, um estudante de Jornalismo almejava ser um repórter, arranjar um emprego em um pequeno jornal, eventualmente passar para um jornal mediano e, então, para um jornal de grande porte. Agora, o repórter pode criar seu próprio blog, um podcast ou vídeos digitais em uma operação solitária, manejando o aspecto editorial e as tarefas ligadas ao gerenciamento do negócio simultaneamente.”, afirma, citando alguns exemplos de jornalistas que trocaram o mainstream por seus próprios empreendimentos: “Rafat Ali, no PaidContent, Om Malik no GigaOm, Debra Galant no BaristaNet, Josh Marshall no TPM Media, Henry Abbott no TrueHoop (agora parte da ESPN), entre outros. Mas as escolas de Jornalismo ainda estão lentas no que se refere ao ensino de técnicas de empreendedorismo e gerenciamento de negócios que seus alunos irão precisar”.

Jeff Jarvis, diretor de jornalismo interativo da City University of New Yourk´s Graduate School of Journalism – que mantém uma disciplina chamada jornalismo empreendedor – considera vital que os jornalistas compreendam como funciona o gerenciamento de uma empresa de comunicação. “Quando eu comecei neste ramo, nos diziam para não nos metermos com os negócios, e de fato nós não precisávamos fazer isso enquanto empregados dos monopólios. Mas, hoje, precisamos dar aos jornalistas um conhecimento dos negócios, para que eles possam tomar boas decisões com jornalistas e empresários. Assim, poderão trabalhar independentemente.”.

Esta não é uma visão nova. A Graduate School of Journalism da University of Califórnia, em Berkeley, manteve a disciplina Journalism and Business Models Online entre 1999 e 2002, quando a crise nos modelos online fez com que muitos alunos perdessem o interesse pela matéria. Em 2007 a disciplina voltou ao currículo. Marcia Parker é uma das profissionais envolvidas no projeto. Segundo ela, a retomada da disciplina foi uma exigência dos alunos.

Habilidades de empreendedorismo são essenciais para todos os jornalistas hoje em dia. Nosso ramo está se tornando mais empreendedor a cada dia. Não acho que as escolas de Jornalismo estejam fazendo o suficiente nesta área. Muitos dos nossos estudantes estão famintos por estes conhecimentos… Embora nem todos queiram iniciar um negócio próprio, eles precisam compreender estes mecanismos para levá-los até mesmo para as redações tradicionais, que estão em busca de novos produtos editoriais e serviços”, afirma.

O empreendedorismo também foi alvo de debate na conferência promovida na Sciences Po École de journalisme. A jornalista  Soraya Kishtwari conta que na University of Missouri School of Journalism os estudantes estão sendo encorajados a construir seus próprios futuros a partir de uma imersão nas novas tecnologias e experiências de campo baseadas nelas. “Um dos nossos grupos de estudo está trabalhando junto a estudantes de engenharia no desenvolvimento de aplicativos para o iPhone”, disse Fritz Cropp, diretor de assuntos internacionais da instituição.

Para  Eric Scherer, da AFP, o futuro do Jornalismo repousa sobre os jornalistas empreendedores e seus esforços em criar soluções jornalísticas que facilitem os processos de comunicação e promovam continuamente a revisão dos modelos de negócios em vigência.

O consenso no evento em Paris foi de que as novas tecnologias, em particular as que emergem da internet, estão modificando profundamente as dinâmicas do Jornalismo e a relação entre o público, os agentes de notícia e as notícias, propriamente ditas. As mídias sociais não são mais um fenômeno, são um suporte, e as escolas de Jornalismo tem uma grande oportunidade de possibilitar aos seus estudantes o entendimento sobre o valor destas ferramentas na construção de suas habilidades profissionais.”, relata Soraya.

Estas leituras, apesar de refletirem a realidade do Jornalismo estadunidense, europeu e asiático, podem ser usadas também para analisar as necessidades dos estudantes de Jornalismo no Brasil. Eles também estão prestes a serem lançados em um mercado de trabalho a cada dia mais saturado. Precisam desenvolver sua criatividade para aproveitarem ao máximo as oportunidades que as novas (e também as tradicionais) tecnologias de comunicação oferecem.

O empreendedor é uma pessoa criativa, caracterizada pela capacidade de estabelecer e alcançar objetivos. Ele deve se manter constantemente informado a fim de detectar novas oportunidades. À medida que continua se informando sobre novas oportunidades e tomando um conjunto de decisões moderadamente arriscadas, ele estará preenchendo um papel inovador”, diz Louis Jacques Filion no livro “ O Empreendedorismo como Tema de Estudos Superiores”. Não precisamos, todos nós, jornalistas, de um pouco desta força motriz?

O jornalista e acadêmico português António Granado fez recentemente a mesma argüição ao concluir que o “jornalismo nas redações nos próximos anos vai ser cada vez mais trabalhar para a Internet e saber aproveitar as suas potencialidades…”. Questiona ele: “Estamos a ensinar aos nossos alunos as competências de empreendedorismo de que eles realmente vão precisar? …que adaptações é necessário fazer ao currículo para que tenhamos tempo de dar conta destas transformações e ao mesmo tempo insistir nos princípios básicos do jornalismo sem os quais nada (de interessante ou útil) é possível?

 

 

 

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