Vida de freela: Saiba como se aproximar, o que oferecer e quanto cobrar pelas suas sugestões de pauta.

Por Marlon Maciel – Revista Imprensa –  11/10/2007

 

Tem jornalista que não suporta redação, bronca de chefe e horários para cumprir. Outros até gostam, mas simplesmente não conseguem uma vaga.  Seja por opção ou força da circunstância, o freelancer vive de vender boas idéias.  No mercado paralelo da imprensa,  existem duas regras de ouro: a primeira é saber vender o peixe. A segunda é estar sempre na vitrine. “Precisa estar em evidência, como um jogador de futebol e um ator de novela. Ter fontes sobre vários assuntos, cumprir prazos e manter a qualidade do trabalho. Isso só é possível através de uma rede de relacionamentos. O frela é um empreendedor”, destaca Guy Correa, que escreve livros institucionais e assina textos desde 2002 para as revistas Viagem & Turismo e Exame, da Abril, uma das editoras mais cobiçadas pelos freelas.

Corrêa chegou a ser contratado nos anos 90, na época do estouro das empresas pontocom. “Depois que essa bolha explodiu percebi que conseguia sobreviver oferecendo pautas e escrevendo para as editoras. Há quem, psicologicamente, precisa ter uma ligação formal com o chefe, salário, horário, local de trabalho etc. Eu não”.

O trabalho terceirizado passou a ser uma tendência no jornalismo a partir dos anos 80. Atualmente, estima-se que o contingente de freelas é tão grande – ou maior – que o de repórteres contratados. Mas como se aproximar dos editores? Quanto cobrar?

Fazer amigos, influenciar pessoas

Mais do que boas idéias, o freelancer precisa manter um bom relacionamento com editores,  ter disciplina, ser organizado e, acima de tudo, montar uma boa agenda.

O goiano Leandro Quintanilha percebeu que poderia viver longe das redações. A mudança ocorreu após um ano e meio no Jornal da Tarde, quando foi cortado do quadro de repórteres. Começou pedindo indicações aos amigos, fazendo novos contatos e investigando expedientes. “Comprava revistas que me interessavam e mandava e-mails aos editores sugerindo pautas”, lembra.

Demorou, mas os retornos positivos foram surgindo. Tempos depois, ele foi convidado para voltar a velha rotina, dessa vez na revista ARede. “Fiquei três meses, e, apesar do bom ambiente, percebi que eu era mais feliz trabalhando em casa”, confessa.

Atualmente, ele atende as revistas Quatro Rodas, Exame, Superinteressante, Frota S/A, Sociologia, Filosofia, Língua Portuguesa e Educação. Na fase de apuração, Quintanilha trabalha até quatro horas por dia.

Abordagem

Parece simples, mas não é. Conseguir atenção dos editores  – parece que eles estão sempre em fechamento – muitas vezes é uma tarefa inglória. “Os editores estão sempre ocupados, mesmo que não estejam fazendo nada. Geralmente, não costumam dar atenção via telefone. Por isso, o frela tem que ser diferente”, diz Guy Correa.

Outra dica dos freelas é saber negociar. Na maioria dos casos, o trabalho é pago por página publicada, por matéria ou pelo número de linhas escritas. Os valores, geralmente, são sugeridos pelo contratante. “Nunca estabeleci preço”, diz o goiano Quintanilha.

Uma boa referência são as tabelas dos Sindicatos.  Existem 23 espalhados pelo País. Cada um conta com uma tabela de preços. Em todos os casos, o cálculo é bastante complicado. Os valores mudam de acordo com o número de fontes, número de caracteres, dia da semana e horário. Confira as referências para SP, RJ e DF (veja quadro).

“Já recebi R$ 800 por uma matéria pequena como também fiz matérias enormes e fui mal remunerado. A dica é calcular quanto se produz no mês”, conta Quintanilha.

Segundo o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo, Guto Camargo, a existência da tabela para freelas não significa que a entidade tenha o poder de estipular valores. “Não temos poder para tabelar os serviços. É uma referência”, explica. Os preços são calculados em assembléias dos profissionais da categoria. A correção tem como parâmetro o Índice Nacional de Preços ao Consumidor.

Também não há punição nos casos em que a tabela é ignorada. “Mas ela serve de referência à Justiça em causas trabalhistas”, conclui.

Regras e exceções

No Jornal do Brasil, a contratação de frrelas não faz parte da rotina. O editor-executivo Alexandre Carauta conta, porém, que há exceções. “Usamos em circunstâncias especiais, mas eles precisam ser aprovados pelo comando da redação”. As reportagens terceirizadas podem ser negociadas, “desde que justifiquem, com um conteúdo excepcional, o investimento”.

Já na revista Exame, o reforço dos freelas é requisitado como um complemento, principalmente às edições especiais – pelo menos uma é publicada ao mês. “Também costumamos contar com frelas em matérias da revista que precisam de mais fôlego, que exigem mais investigação, mais fontes. Essas são as situações mais comuns”, explica o editor  José Roberto Caetano.

A produção da “Melhores e Maiores 2007”, em agosto, por exemplo, contou com quase 30 frelas. A revista tem sua própria tabela e paga por página publicada (média de R$ 400).

Em muitos casos, a demanda por freelancers cresce devido a crise. Fontes da  IstoÉ,por exemplo, estimam que os frelas representem 10% da redação. “O quadro não é bom. Na fotografia é quase 100%”, relata um jornalista da casa. “Pagam o quanto querem, abaixo da tabela. Agora estão reinventando o frela fixo com nota fiscal, os PJ [Pessoa Jurídica]. Na IstoÉ foram contratados dezenas de PJ’s por R$ 1.500, para trabalharem dez horas por dia”, reforça. Procurada por IMPRENSA, a direção da editora não se manifestou até o fechamento da edição.

portalimprensa.uol.com.br/revista/edicao_mes.asp?idMateriaRevista=50

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