“O jornalista que trabalha fora da redação sofre resistência”, diz Laurentino Gomes

Ana Ignacio – 07/11/2011 – Portal da Imprensa

No último dia 17, Laurentino Gomes teve sua segunda obra reconhecida por um dos prêmios mais tradicionais da área, o Jabuti. Após premiação, em 2008, de seu primeiro livro, o best-seller “1808”, “1822” também foi considerado a melhor obra de reportagem do ano.

Após mais de 30 anos em redações – foi repórter e editor do O Estado de S. Paulo e da Veja, além de diretor da Editora Abril – Gomes passou a se dedicar definitivamente a outro tipo de jornalismo. “Continuo fazendo reportagem, mas com um formatado diferente”, define.

Depois do sucesso das duas primeiras obras, o jornalista prepara o terceiro e último livro com “data na capa”, “1889”. Com lançamento previsto para 2013, Gomes está em fase de pesquisa para seu novo trabalho e às vésperas de uma mudança para os EUA. Gomes irá ficar cerca de um ano afastado do Brasil para se dedicar ao livro. “Vou conseguir ter mais tempo para a pesquisa. Acho que todo o trabalho de reportagem tem um ciclo. E é importante não mistura-los. Escrever tem que ser mais recluso. Então o próximo ano e meio é o de muito recolhimento para mim”.

Em uma de suas últimas entrevistas antes dessa fase de recolhimento, Gomes revela que se sente no ápice da carreira e fala do prêmio Jabuti, jornalismo, crítica literária e de sua nova obra.

IMPRENSA – “1822” É A SUA SEGUNDA OBRA A RECEBER UM JABUTI. O RECONHECIMENTO É DIFERENTE APÓS JÁ TER SIDO PREMIADO ANTES?

Laurentino Gomes – Quando se escreve uma primeira obra de sucesso, ela é de muita comemoração e felicidade, mas também de certa angustia, pressão. Fazer a obra seguinte ter sucesso é um grande desafio. O próprio autor se pergunta se vai conseguir repetir o sucesso. O leitor fica na expectativa, a crítica fica mais atenta ao autor. Então o “1822” foi um grande desafio porque o sucesso com o “1808” pesou. Fiquei muito feliz com o prêmio.

IMPRENSA – SUA PRIMEIRA OBRA RECEBEU FORTES CRÍTICAS DO MEIO ACADÊMICO. GANHAR PRÊMIOS POR ELA E TAMBÉM PELO SEGUNDO LIVRO DIMINUI ESSE RANÇO?

Gomes – O prêmio é um reconhecimento grande do mercado editorial. Um crivo de um júri especializado que diz se sua obra tem méritos jornalísticos e literários. Agora sempre fica aquele ranço de um grupo acadêmico que não se conforma com um jornalista fazendo sucesso na área de historia do Brasil. Mas é um grupo reacionário que já me acostumei.

IMPRENSA – ACREDITA QUE A RESISTÊNCIA EXISTE POR VOCÊ SER JORNALISTA?

Gomes – Acho que sim. O jornalista, em qualquer área de atuação fora das redações, é alvo de resistência por parte dos especialistas. Sempre existe. É inevitável. É da natureza da profissão. O Brasil é muito reacionário na área do conhecimento. A imprensa não é aceita como uma instituição plenamente legítima, com função social e papel importante na sociedade. Não é a toa que é tão comum falarem que tudo é culpa da mídia. A mídia virou o bode expiatório da sociedade. Quando não sabem resolver um problema, jogam a culpa na mídia. Violência é culpa da mídia, corrupção é culpa da mídia, problemas ambientais são culpa da mídia. Qualquer jornalista que faça um bom trabalho fora da redação sofre resistência. O problema é o formato. Uma boa reportagem sobre historia do Brasil, publicada em uma revista, tudo bem. Mas um livro não. Por que não um livro?

IMPRENSA – COMO ESTÁ A PRODUÇÃO DE SUA NOVA OBRA, “1889”?

Gomes – Estou na fase de pesquisa. Minha ideia é publicar em 2013. Já tenho um roteiro de pesquisa, mais de 150 livros e obras de referencia. Já li umas 30. Ainda tenho um bom caminho. Esse começo é o momento de dominar acontecimentos, datas, personagens. Tem sido uma aventura, tenho descoberto coisa que eu não tinha aprendido como jornalista e nem na escola, e isso é importante. Se a gente não se surpreende no período de reportagem, dificilmente vamos surpreender o leitor. O repórter precisa ficar movido e mobilizado pela descoberta para fazer uma reportagem que passe essa mesma sensação.

IMPRENSA – VOCÊ TEM ALGUM RECEIO DE FICAR MARCADO COMO O AUTOR DOS LIVROS DE HISTÓRIA?

Gomes – Receio não , mas não quero me tornar o autor das efemérides e quero ampliar o foco…não quero ficar como se estivesse fazendo uma coleção de datas. Eu quero escrever só mais esse livro com data na capa. Quero fechar essa trilogia do século XIX e completa uma obra. São as três datas principais da história do país. Depois talvez eu volte pra trás… Guerra do Paraguai, escravidão, algumas biografias de personagens…

IMPRENSA – PRETENDE VOLTAR A ATUAR EM REDAÇÕES?

Não, porque eu não preciso em nenhum sentido. Continuo fazendo reportagem. É isso que eu faço, mas com um formatado diferente, prazos diferentes. Me sinto recompensado profissionalmente. Continuo sendo repórter e editor. Me sinto mais jornalista hoje do que antes. Sempre me apresento como jornalista, sou reconhecido como jornalista pelos colegas e me sinto aplicando tudo que aprendi ao longo de 30 anos nas redações. Me sinto no ápice da minha carreira.
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