Verbos Sinuosos

Chico Viana

Publicado na revista “Língua Portuguesa” (Segmento) n. 73, p. 36-40

 

Conjugar um verbo é flexioná-lo em modo, tempo, número pessoa e voz.  Em princípio bastaria conhecer os sufixos que indicam o modo e o tempo, e as desinências que determinam o número e a pessoa, para realizar com êxito essa tarefa. No entanto uma série de fatores ligados à estrutura e ao funcionamento de nossos verbos dificulta a conjugação.

O primeiro deles são as mudanças no radical, ou seja, na parte da palavra em que se concentra o seu sentido. O falante tende a seguir os modelos estabelecidos nas três conjugações, mas frequentemente se depara com irregularidades ou anomalias que fogem ao chamado paradigma. O choque começa cedo; a criança diz que o irmãozinho não “cabeu” na cama. Ao ser repreendida pela mãe, não compreende por que diz “bebeu”, “comeu”, “perdeu”, mas deve dizer “coube”.

O segundo fator que dificulta a conjugação verbal em português são as lacunas ou os excessos que se observam na flexão de certos verbos. Há os que por variados motivos não apresentam todas as formas. E os que apresentam formas duplas (ou mesmo triplas) em tempos como o particípio. É preciso então conhecer as particularidades que cercam os verbos defectivos e abundantes.

O terceiro fator relaciona-se com o emprego dos modos e tempos. Ao contrário dos dois anteriores, que são de natureza morfológica e semântica, esse diz respeito ao discurso. O emprego inadequado dos modos ou a falta de correlação entre eles geram incoerências e quebras de paralelismo que comprometem a arquitetura do texto.

 

Bons modos

 

O modo indica a disposição do falante quanto à ação verbal. Há três modos em português: o indicativo, o subjuntivo e o imperativo. Por meio do indicativo designam-se ações reais e independentes: canto, cantava, cantei, cantaria. O subjuntivo indica ações prováveis ou dependentes de outras. É o modo em que aparece a maioria dos verbos das orações subordinadas (é preciso que eu cante, se eu cantasse, quando eu cantar).

Falhas no emprego do modo comprometem a lógica do texto. Numa frase como “Espero que você chega hoje”, a flexão no indicativo apresenta a ação de chegar como um fato, quando ela é uma hipótese. O mesmo ocorre nesta outra, retirada de uma matéria jornalística: “Comerciantes permitem que menores de idade adquirem a droga.” Fala-se da possibilidade de adquirir a droga, o que se traduziria com o emprego do subjuntivo (adquiram) e não do indicativo.

Os modos devem não apenas ser usados com rigor, como também estar adequadamente correlacionados. A quebra da correlação compromete a simetria estrutural da frase. É o que ocorre, por exemplo, quando alguém diz que “viajará se tivesse dinheiro”. O verbo “ter” no imperfeito do subjuntivo não se harmoniza com a firmeza de propósito do emissor, indicada pelo futuro do indicativo. Em casos como esse o valor do conectivo varia; dependendo dos tempos correlacionados, o “se” pode adquirir um matiz temporal (viajarei se tiver) ou destacar a ideia de condição (viajaria se tivesse).

 

As correlações mais comuns são:

 

a) presente do indicativo e presente do subjuntivo: “Deseja que o filho vença”.

b) futuro do subjuntivo e futuro do presente “Se ele insistir, vencerá”.

c) imperfeito do subjuntivo e futuro do pretérito: “Se ele insistisse, venceria.”

 

Além dessas há correlações com os tempos compostos, que permitem relacionar diferentes momentos da ação verbal. É possível com o auxílio das locuções:

 

– indicar um fato anterior a outro no passado: “O garçom percebeu que o cliente tinha derramado a cerveja.”

– entre duas ocorrências no futuro, assinalar a que é anterior: “Quando ela voltar, terei vendido o apartamento.”

– entre duas ações hipotéticas, indicar a que é posterior: “Se nos alertassem, teríamos comprado o apartamento.”

 

Quebras na correlação são possíveis quando se quer obter ênfase. É o que ocorre  numa frase como: “Se você se incomodar com o barulho, eu paro”. O presente em lugar do futuro (pararei) ressalta a disposição do falante em praticar a ação. Há situações em que a falta de simetria torna ambíguo o enunciado, como se vê nesta passagem retirada da redação de um dos nossos alunos: “É difícil encontrar algum jovem que não estivesse empenhado em mudar o quadro político nacional.” O uso do verbo ser no presente mostra como atual uma dificuldade que existia no tempo dos governos militares. A troca de “é” por “era” desfaria a incoerência temporal.

O que não pode no imperativo

 

O imperativo é o modo que traduz ordem, apelo, súplica. Forma-se em português a partir dos presentes do indicativo (nas pessoas “tu” e “vós”, cortando-se o “s” final) e do subjuntivo (nas pessoas restantes). O imperativo negativo é aproveitado integralmente do presente do subjuntivo. Com base nisso, segue o imperativo do verbo “cantar”:

 

                     Afirmativo                       Negativo
                           —-                               —-
                     Canta tu                       Não cantes tu
                     Cante você                       Não cante você
                     Cantemos nós                       Não cantemos nós
                     Cantai vós                       Não canteis vós
                     Cantem vocês                       Não cantem vocês

Os problemas no emprego do imperativo decorrem basicamente do desconhecimento do seu processo de formação. No âmbito da norma culta, exige-se a flexão correta. No registro coloquial é comum a mistura de pessoas gramaticais (“Respeita seu pai!”, em vez de “Respeite seu pai!”) e o uso de formas do afirmativo em sentenças negativas (“Não canta muito alto, que vais assustar os vizinhos.”). Também no domínio literário são comuns os desvios, como se vê nesta passagem do “Fado tropical”, de Chico Buarque e Ruy Guerra: “Mas não tão ingrata/ Não esquece quem te amou…”. O uso de “sejas” e “esqueças” sacrificaria a métrica e a fluidez dos versos.

Contornando as lacunas

 

 

Certa ocasião, pressionado por manifestações contra o seu governo, o ex-presidente João Batista Figueiredo (1970-1985) advertiu assim os opositores: “Não me ameacem, nem ao regime, senão eu recrudesço…”. Mais do que o tom ameaçador do general, deu o que falar a flexão indevida de “recrudescer”. É que esse verbo, assim como “urgir”, “grassar”, “acontecer” e alguns outros, conjuga-se apenas na terceira pessoa.  Trata-se de um verbo unipessoal, uma categoria que se costuma incluir entre os  defectivos. Defecção quer dizer falta. Esses verbos apresentam lacunas em algumas pessoas devido a razões de significação (a exemplo dos unipessoais) ou de eufonia.

Entre os unipessoais merecem destaque os impessoais, que pelo sentido não podem ter sujeito. São os que indicam fenômenos da natureza, vozes de animais e certos eventos biológicos. Apenas no plano figurado eles se conjugam nas demais pessoas. Vinicius de Moraes tira bom partido dessa possibilidade em versos como “De tarde anoiteço” e “Eu morro ontem”, de “Poética I”, nos quais ilustra o poder que tem o eu lírico de ultrapassar os limites do tempo.

Também são unipessoais “ter/haver” (com o sentido de existir) e “fazer” (quando indica tempo decorrido). Devem-se então evitar construções como: “Haviam (tinham) pessoas na sala” ou “Fazem três semanas que ela chegou”. O correto é manter os verbos no singular.

 

Evite o que não for de bom som

Entre os defectivos incluem-se os verbos que não apresentam todas as formas por razoes de eufonia. É o caso de “abolir” e seu grupo (colorir, demolir, imergir…), que não se conjugam na primeira pessoa do singular do presente do indicativo; e de “falir” e alguns outros (delinquir, punir, remir…), que só se conjugam na primeira e na segunda pessoa do plural. Também merecem atenção “adequar”, “precaver-se” e “reaver”, que a exemplo de “falir” só apresentam no indicativo presente as pessoas “nós” e “vós” e, consequentemente, não têm presente do subjuntivo.

Uma forma de suprir as lacunas dos verbos defectivos é substituí-los por sinônimos ou expressões correspondentes. “Adequar”, por exemplo, pode ser substituído por ajustar, combinar; “precaver-se”, por prevenir-se; “reaver”, por recuperar.

Como nem sempre há concordância quanto ao que seja soar bem, observa-se vez por outra a flexão de alguns desses verbos nas pessoas que a gramática registra como inexistentes. Assim, não é difícil deparar-se com frases do tipo: “Imerjo numa piscina de águas cálidas”, “Puno quem discordar de mim” ou “O projeto não se adéqua aos meus propósitos”. O uso contínuo dessas formas pode acabar nos acostumando com a dureza dos sons e tornando-as naturais. De qualquer modo, é preciso não abusar.

Verbos abundantes 

São os que apresentam mais de uma forma em determinados tempos. Incluem-se neste grupo os que apresentam dois (ou mais) particípios, como “aceitar” (aceitado e aceito), “fritar” (fritado e frito), “soltar” (soltado e solto) e outros. As formas terminadas em “ado” ou “ido” são regulares e se usam na voz ativa com os auxiliares “ter” e “haver”; as que terminam em “to”, “so”, “vo”, “go” são irregulares e aparecem na voz passiva. Exemplos: “Os alunos têm aceitado as reprimendas.” “As reprimendas têm sido aceitas pelos alunos.” “A camisa foi imersa (e não “imergida”) em água e sabão.”

“Ganhar”, “gastar” e “pagar” têm particípios regulares e irregulares (ganhado – ganho; gastado – gasto; pagado – pago). É frequente o uso das formas irregulares também na voz ativa. Exemplos: “Marisa havia ganhado (ou ganho) a maior parte dos prêmios.” “O rapaz teria gastado (ou gasto) todo o dinheiro em jogos.” “Maurício havia pagado (ou pago) seus compromissos em dia.”

 

Dicas úteis

Semelhanças entre os verbos e falsas derivações comumente levam a erros na conjugação verbal. Eis, quanto a isso, algumas observações úteis:

 

– os verbos “ver” e “vir” têm a mesma forma, respectivamente, na primeira pessoa plural do perfeito e do presente do indicativo: “Vimos muitas pessoas lá.” “Vimos protestar contra as más condições dos hospitais.” A flexão “viemos” corresponde ao perfeito deste último verbo: “Viemos ontem e não voltaremos amanhã”;

 

— “provir” vem de “vir”, mas “prover” não se origina de “ver”.    Sendo assim, é correto dizer que “o sucesso de alguém proveio de muito esforço”, mas não que “o pai proviu a casa do necessário”. O correto é proveu (abasteceu);

 

— “intervir” é o verbo vir antecedido do prefixo “inter”. Devem-se então evitar as flexões “intervi”, “interviu”, “intervira”, “interviram”. As formas corretas são intervim, interveio, interviera, intervieram.

 

– derivados do verbo “ter” (a exemplo de “conter”) merecem atenção no perfeito do indicativo e nos tempos dele derivados (mais-que-perfeito do indicativo, imperfeito do subjuntivo e futuro do subjuntivo). Do contrário vai-se cometer engano semelhante ao que cometeu um de nossos alunos quando escreveu: “Se não contermos o que as crianças querem ver, elas se tornarão violentas.” O correto é contivermos;

 

– há cinco verbos terminados em “ear” que recebem “e” no radical das formas rizotônicas (1a., 2a, 3a. pessoas singular e 3a. do plural do presente do indicativo e do subjuntivo). São eles “mediar”, “ansiar”, “remediar”, “incendiar” e “odiar”.  Deve-se dizer, por exemplo, que “alguém intermedeia (e não “intermedia”) as negociações.

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Chico Viana, doutor em Letras pela UFRJ, é professor de português e redação em João Pessoa. (www.chicoviana.com)

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