Mensalão, privataria, ditadura…

Escrevo sobre o mensalão agora antes que a censura à imprensa que advogados do PT estão protagonizando dê certo (ninguém acredita nisso, estou brincando) e impeça-nos de dar nomes aos bois. Isso não é prejulgamento e sim uso de um adjetivo, ou melhor, desculpe, sinônimo, apelido que pegou referindo-se a AÇÃO PENAL 470. Igual a “privataria tucana” – termo e livro que também tentaram censurar. Ou a palavra “ditadura”, que na época da ditadura militar brasileira era proibido de falar. Deixa eu aproveitar um pouco: DITADURA! DITADURA! DITADURA! Democracia é legal né? Lembro-me que o jornalista e ex-deputado João Melão, há alguns anos no Estadão escreveu um artigo dizendo que não poderíamos nos referir a expressão “ditadura militar”, pois tecnicamente, ou “legalmente”, não tivemos ditadura, e diferente ao que aconteceu em outros países da América Latina, por aqui tudo foi aprovado pelo Congresso… tudo na legalidade. Parece piada né? Mas tem um lado da corrente que acredita piamente nisso.

Faço essa introdução para acabar com a babaquice do julgamento técnico X julgamento político e blá, blá blá. O julgamento do mensalão no STF, independentemente do resultado, já está servindo como instrumento de pedagogia e divulgação sobre o que é a política brasileira. É para nos indignarmos com o modus operandis da coisa toda que vou falar mais a respeito do ponto de vista que interessa para a comunicação pública, uma de minhas especialidades.

Antes quero chamar a atenção para o detalhe que tanto jornalistas como advogados tem se comportado profissionalmente diferente nesses últimos anos. Mais que militantes ou profissionais remunerados, agora são contratados apaixonados pela causa que defendem em troca de honorários. Imaginem um advogado defendendo uma causa cível ou criminal qualquer, ele não entraria no mérito e sim em oferecer seus serviços para o constitucional direito de defesa justa de qualquer cidadão, seja culpado confesso, inconfesso ou inocente. Agora estamos vendo advogados virem a público jurar por deus (em caixa baixa mesmo) que seu cliente é inocente e que tudo é uma canalhice, uma injustiça, uma perseguição política e outros adjetivos de torcedor de futebol. Não precisaria disso. Não são relações públicas ou porta-vozes (que também não precisam exagerar, muito menos faltar com a verdade em público). Assessores de comunicação andam fazendo o mesmo. Mas devemos lembrar que jornalista-assessor não é advogado e não tem que defender um lado da pendenga – principalmente quando é pago com o erário público. Em tese, defenderia a verdade, estando do lado do balcão de um meio de comunicação ou de uma assessoria. É o que prega o manual de assessoria de imprensa da Fenaj. Contatando colegas (veja bem, colegas de profissão, não amigos) que atuaram como assessores ou secretários de comunicação de prefeituras cujos chefões foram presos ou depostos recentemente (e olha que não foram poucos), fiquei surpreendido em ouvir que eles defenderiam seus patrões até no inferno. Lealdade?. “Eu estava desempregado e ele que me tirou do sufoco”, me revelou um deles. “O político certinho não me deu a mão…”, justificou em sua peculiar moral. Lembro-me de ouvir algo parecido numa periferia, numa comunidade carente, onde uma senhora me disse que o tal Zé, traficante e assassino sangue frio, era uma boa pessoa (foi preso). “Mas ele mandava matar e torturar pessoas”… questionei. “Aí meu Deus, não quero saber”, respondeu imitando o macaquinho que tapava os ouvidos. “Ele me ajudava muito”, revelou ainda com as mãos nos ouvidos. Num bar vizinho o proprietário estava contente. Disse que contratou um “matador”. Um segurança que matava bandidos em tentativas de assaltos em seu estabelecimento. “Você não acha que acostumar alguém a matar por dinheiro pode se tornar um hábito e ele um dia pode te matar se alguém pagar mais?”, cutuquei. Ele não entendeu – ou não quis entender –  a complexidade moral-filosófica da minha pergunta. Estava sendo pragmático, defendendo seus interesses econômicos numa situação que o poder público não ajudava. Parecido com o pensamento de certos assessores de corruptos. Novamente não estou prejulgando ninguém no caso do mensalão, apenas dando um exemplo dramatizado. Política partidária não deveria tem o mesmo radicalismo cego e apaixonado futebol.

Numa pequena cidade nestes dias, na inauguração de um equipamento público que custou R$ 1 milhão e duzentos mil, um empresário da construção civil dizia para um grupo de jornalistas que a obra sairia por uns R$ 400  mil no máximo se fosse encomendada para a iniciativa privada. Todo mundo riu. Engraçado, né? Aí outro empresário presente iria explorar um teatro lá dentro e também uma bomboniere anexa. Seu pragmatismo empreendedor: “Se der lucro eu assumo se não eu terceirizo”.

Agora vamos ao que interessa. Se você acompanhou atentamente a narrativa da acusação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, nesta sexta feira, ouviu os detalhes das operações pretensamente fraudulentas na área de comunicação pública. Nada de novo, se você é profissional (sério ou não) na área já sabe como as coisas funcionam… O importante é isso vir a público, assim, em detalhes, ao vivo…é a maravilha da TV Justiça, uma revolução na democracia Brasileira. Para as pessoas ficarem indignadas, mesmo que tudo acabe em pizza. Mas alguma coisa muda depois, gradualmente… Político não gosta de ser pego com a boca na botija. Vai tomar mais cuidado depois. Um político suspeito recentemente se queixou na imprensa que seus filhos estavam sendo hostilizados na escola. “Teu pai é ladrão!”. O problema parecia não ser o delito em si e sim a exposição pública-familiar.

Agências de propaganda contratadas sem licitação, licitações fajutas, serviços contratados e não entregues… essa foi a  narrativa de Gurgel. Caracas, como é fácil tomar dinheiro de uma empresa pública ou banco público, ou empresa privada e não devolver! Se o dinheiro não foi para o bolso de ninguém e sim  para pagar despesas de campanha não importa (vamos fingir que acreditamos). O que interessa aí é o desvio de recursos, a fraude nas contratações, a falta de meritocracia, o setor de comunicação pública entregue nas mãos de partidos. Já prestei alguns serviços para governos… poucos diretos, muitos indiretos como a maior parte dos consultores independentes, que não tem cabresto de partidos. Sabe como é, alguém “ganha” uma licitação na área de comunicação e repassa  (legalmente)  para uma outra agência que repassa para outra, que recontrata uma empresa qualquer que contrata formalmente ou informalmente um jornalista ou publicitário que vai colocar a mão na massa. Vai trabalhar, entregar o serviço. Evidentemente por um valor extremamente inferior ao contratado lá na ponta. Castigo por não ser filiado. O grosso fica com os gatos intermediários. Lembro-me da maratona de papéis, certidões, questões legais a serem cumpridas em cartas-convites de valores pequenos, a cobrança permanente dos gestores. O que vimos no mensalão são milhões repassados para agências que não entregaram o trabalho ou que desviaram sua finalidade. E jornalistas contratados como funcionários de algum órgão público para trabalhar de fato no gabinete de um parlamentar ou tocar uma campanha eleitoral.

Aliás, não tenho como condenar colegas em cargos em comissão. Contratados dentro da “lei” e  não sendo fantasma, claro. Nesse mercado pequeno e concorrido às vezes é o único trabalho que surge. Outras vezes o comissionado é melhor técnico que o concursado (na maior parte das vezes não, mas essa discussão não importa também). Agora, pensem comigo: vocês não acham que é uma espécie de compra de votos o governo que se utiliza dos comissionados como cabos eleitorais? Façam as contas que é a que os políticos fazem: um comissionado na época de eleição vai atrás
“voluntariamente”  de no mínimo 10 votos (o melhor é garantir uns 30 ou mais por vias das dúvidas) na família e com amigos para manter a continuidade de seu emprego, gostando ou não do candidato. Gostando ou não. É obrigado por circunstâncias econômicas. Ou em troca da lealdade tipo da senhora na favela que citei acima. Igual aos reféns de programas assistencialistas. Acredito que só com comissionados, seus amigos, familiares e militância acorrentada, passiva ou ativa, se garante muita eleição, principalmente no âmbito municipal.

O jornalista Franklim Martins, ex-ministro da Comunicação Social do governo Lula, num evento recente, questionado pelo público a respeito dos critérios de contratação de agências de comunicação e critérios de investimento oficial em mídia, ficou irritado e disse que não adiantava nada aperta-lo porque “da minha boca vocês não irão ouvir nenhuma palavra contra o governo Lula” –  lealdade de quem fez parte da folha de pagamento. Mesmo que não concordasse com algo (não disse isso mais ficou implícito) E olha que é ou era um jornalista respeitável. Quero dizer, imparcial, com opiniões e visão jornalística. Agora nunca mais será o mesmo jornalista imparcial. Vai precisar de uma longa quarentena e que as pessoas esqueçam o cargo que assumiu. Triste isso. Silêncio semelhante “ouvimos” nas bocas de intelectuais e políticos históricos do PT que disseram que tinham o direito de ficar calados, não comentar a respeito do mensalão ou do caso pragmatíssimo do apoio do ex-inimigo demonizado Maluf na campanha pela prefeitura de São Paulo. Parece coisa de crente de igreja que acha que Deus castiga se criticar a instituição.

É uma pena o que se transformou o PT – e também o PSDB é bom frisar -, os únicos partidos  majoritários com “P” maiúsculo no país. Essa é a lição do mensalão e de outros escândalos recentes em nível federal e estaduais. Seu resultado jurídico não importa. Sabemos que ninguém será apropriadamente punido (na concepção popular e se forem realmente culpados) nem o dinheiro desviado devolvido. Talvez um laranja seja punido exemplarmente para acalmar a ânsia popular. Muito ruim para a democracia. A práxis da política brasileira não tem mais diferenciação. É tudo sopa de letrinhas. Na internet o povo não perdoa com piadinhas: “A diferença entre esquerda e direita é relativa à mão que rouba”. Ou, como dizia Jorge Amado, “a gente é inclinado a pensar que só existem canalhas na direita, quando a esquerda está cheia deles.” Agora estamos falando do contexto político geral no Brasil e não de casos específicos. Mais uma, agora do ator Paulo Betti no passado: “Não dá pra fazer política sem botar a mão na merda”. Eu discordo. Sou um sonhador.

O mercado fica refém do interesse político-econômico. Crime mesmo, só é punido o de opinião. Direta ou indiretamente. Vejam que nas comunidades de profissionais de comunicação e grupos de discussão abertos ou fechados nas mídias sociais fica todo mundo acuado. A maioria não se atreve a comentar esse tipo de desvio ético ou criminal. Todo mundo escondendo a opinião para não perder emprego ou não ser estigmatizado  numa futura contratação numa assessoria de empresa privada ou pública ou numa redação. É o paradigma da liberdade de expressão na net. Liberdade de expressar todo mundo tem, mas ninguém é otário de declara-la – alguém comentou “em off”.

Para o empreendedor de comunicação sério, o setor público continua sendo um clube privê, aberto para quem tem boas relações ou carteirinha partidária. Ruim para a qualidade da comunicação pública e para a democracia.

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