Trabalhar até que a morte te separe

Entrei em contato via celular com um colega assessor de imprensa (pequeno empresário) para solicitar mais informações e foto a respeito de um cliente dele. Atendeu no velório de sua mãe. “Estou no velório de minha mãe, mas saindo daqui, mais tarde eu procuro e te envio  a informação que você me pediu”. Lembrei quando meu pai faleceu e eu estava fechando uma revista. A direção da editora ligou me dando os pêsames e aproveitou para cobrar os textos. “Sabe como é João, até é bom você trabalhar um pouco para esquecer esse momento difícil”.

trabalhar até a morte

Essa dimensão do trabalho autônomo é pouco lembrada antes de abrir o negócio próprio. Você não terá tempo nem para enterrar um parente. Se parar, não recebe.  Ou passam teu trabalho para outro.

Numa empresa, trabalhando fixo, o  jornalista não passaria essa situação. Pegaria  uma licença, um dia de folga, e alguém iria fazer o seu trabalho. Contaria com a solidariedade dos colegas, e o trabalho continuaria normalmente. Interessante analisar o olhar do cliente para o freelancer e observar a desumanização da relação do trabalho. O frila é visto como um recurso, não como um ser humano que pode ficar doente, ter problemas particulares, sofrer um contratempo. Trabalhar sozinho sem poder delegar o que tem para ser feito num momento difícil é um ponto de contingência. O contratante não tem nenhum esquema alternativo e nem se presta para cobrir pessoalmente o frila nessa falta. Pensa sim, em contar com o empenho e sangue frio do frila, de uma forma que jamais iria cobrar um colega ou um funcionário.

Como disse recentemente o técnico da seleção brasileira, o Felipão… quer moleza? vá trabalhar no Banco do Brasil (com todo o respeito com os colegas do BB).
PS: Se você morrer trabalhando o trabalho que estiver em andamento será passado para outro (o pagamento também). Já peguei muito pauta de colega que passou dessa para melhor sem terminar o texto final ou as apurações. Coisas da vida e da morte.

4 comentários em “Trabalhar até que a morte te separe

  • janeiro 21, 2013 em 8:08 am
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    Pois é, meu caro colega. Hoje em dia as pessoas ( a maioria de que tenho notícia, pelo menos ) só enxergam números. E, de uns tempos a esssa parte, gatinhos e cachorrinhos. É uma tal de solidariedade pra cá com o bichinho, de lacinhos pra lá com as bichinhas e por aí, vai. O ser humano virou artigo dispensável e descartável. Talvez se o free lancer fosse tratato feito uma bichinha, ou bichinho, a vida seria menos ingrata e solidária. Grato por externar tão oportuno ponto de vista. Abs.

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    • janeiro 21, 2013 em 11:58 am
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      Pois é, caro João Marcos. Eu trabalhei vários anos como freelancer. No entanto continuava recolhendo o que o INSS exigia, só para contar tempo para a aposentadoria. Ocorre que meu esperto contador recolhia minha contribuição para o seu próprio bolso. Quando fui me aposentar, depois de 50 anos (eu disse 50) de trabalho na mídia descobri que eu só tinha direito à aposentadoria “proporcional” . O que dá, em valores atuais, menos de R$ 1.600. Ah…sim, Comecei a trabalhar no extinto Notícias Populares, cujos arquivos, em especial os do Departamento Pessoal, desapareceram quando o jornal do ínclito e eterno deputado Herbert Levy foi negociado com o Grupo Folha. Assim, eu, além de ter “contribuído” em dobro (além do INSS emitia nota fiscal) para o bem deste país, terei que trabalhar até morrer, ou de preferência, morrer trabalhando. Digo de preferência porque, há dois anos estou desempregado, catando um freelancinha aqui, outro ali. Sendo que pelo menos metade deles jamais foram pagos. Um abraço do Tão Gomes Pinto.

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      • janeiro 23, 2013 em 11:37 pm
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        Com a pejotização das redações a situação da nova geração de jornalistas será, infelizmente, ainda pior, Tão Gomes. No seu caso, é uma felicidade aos leitores continuar a ter acesso aos seus textos. Mas eles não sabem a que preço…abs

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  • janeiro 21, 2013 em 5:46 pm
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    Meu pai é taxista autônomo. Se não trabalhar, também não entra dinheiro. Ele é chamado aos sábados, sextas e feriados para levar clientes às suas chácaras e casas de praia. Se não for, além de perder o ganha pão, perde (provavelmente) o cliente. Não apenas jornalistas freelancers “sofrem” com isso. É o osso do ofício de quem é autônomo. Se a pessoa não é dona de um negócio gigante, sinto dizer, mas vai ter que trabalhar em feriados. E situações extremas, como morte de um ente querido, também acontecem, porém, temos que considerar que não é sempre. E também faz parte da vida; quanto a isso, não tem jeito!

    Reclamar não resolve. É preciso parar e colocar prioridades no papel. Gosto de ser freelance? Ou prefiro me submeter a um horário certo, receber ordens (que muitas vezes nao concordo, mas tenho que fazer) e lidar com chefe chato? Talvez muita gente goste da segunda opção, ou não tenha coragem para iniciar um negócio próprio, mas é mais certo quanto a receber seu salário no fim do mês.

    Tudo tem seus prós e contras. Por isso é preciso por na balança nossos valores e fazer uma escolha. E sempre se lembrar dela quando o desânimo bater na porta. Somos responsáveis por nossas ações, mais ninguém.

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